Michal Maimaran passeava em Evanston quando encontrou o pediatra da família e começou um bate-papo — um encontro ao acaso que inspirou um novo projeto de pesquisa. 

Maimaran, professora associada de pesquisas em marketing na Kellogg School, há vários anos estuda a tomada de decisões por parte de crianças. Assim, ficou animada quando o médico mencionou ter observado pais dando muitas opções às crianças a respeito de várias atividades do dia a dia: no parque, elas prefeririam brincar no escorregador, nos balanços, chutar uma bola, jogar frisbee ou subir em uma árvore? Em casa, qual das dezenas de livros disponíveis nas prateleiras querem ler?

Essa abordagem perturbava o médico. Maimaran sabia que pesquisas anteriores indicavam que a abundância de opções pode ser uma coisa ruim — pelo menos para adultos.

Psicólogos e profissionais de marketing já haviam encontrado indícios de que o excesso de opções pode se tornar avassalador ou nos deixar arrependidos sobre nossa escolha final — um fenômeno conhecido como "sobrecarga de opções". Porém, ninguém havia realmente analisado a forma como a abundância de opções afetava as crianças e, em particular, como este excesso afeta o quanto estão envolvidas com a opção que finalmente escolheram. 

Maimaran começou a refletir sobre as opções que oferecia aos seus próprios filhos e, de forma crítica, quanto eles realmente se envolveram com sua escolha final. Afinal, ela diz: "O que mais importa é o que você acaba fazendo com aquilo que você escolhe?"

Assim, surgiu um projeto de pesquisa.

Ela descobriu que pode haver consequências negativas em dar às crianças muitas opções de escolha. Em vários estudos, ela mostrou que quando as crianças dispõem de um grande conjunto de opções para escolher, elas passam menos tempo envolvidas na escolha, em comparação a quando dispõem de uma menor gama de possibilidades.

Ao longo do tempo, sugere Maimaran, o uso de conjuntos de opções de forma estratégica pode afetar os tipos de atividades que as crianças acham interessantes e aproveitam, algo que os pais, educadores e formuladores de políticas podem querer levar em consideração. 

Por exemplo, se quiser manter seu filho interessado em um livro, pode ser melhor disponibilizar apenas dois ou três títulos como opção, em vez de uma pilha. A mesma ideia é válida para outras atividades benéficas, como jogos educacionais e brincadeiras ao ar livre. Por outro lado, embora não estudado diretamente por Maimaran, é possível reduzir o tempo que as crianças passam em atividades menos desejáveis, como videogames, não pela persistência, mas simplesmente oferecendo a elas uma maior variedade de opções de jogos.

George, o Curioso e o estudo da tomada de decisões

Maimaran recebeu ajuda em sua pesquisa de um amável macaco e um homem com um chapéu amarelo.

Os criadores de George, o Curioso provavelmente não tinha essa intenção, mas eles escreveram a série perfeita para um estudo sobre a tomada de decisões por parte das crianças: os livros incluídos no estudo têm o mesmo tamanho, 24 páginas cada, e compartilham uma diagramação de capa semelhante. Como bônus, a série é muito popular entre meninos e meninas, eliminando as preocupações sobre gênero como um fator de confusão.

Em um dos estudos, crianças em idade pré-escolar foram convidadas a escolher um livro a partir de dois ou sete títulos de George, o Curioso. Em seguida, as crianças, que ainda não liam sozinhas, foram convidadas a olhar o livro sem nenhum limite de tempo.

Maimaran descobriu que as crianças que escolheram dentre dois livros de George, o Curioso levaram menos tempo para decidir e mais tempo olhando o livro em comparação com as crianças que escolheram dentre sete opções.

Quando repetiu o teste com um grupo diferente de crianças usando conjuntos de blocos de construção de cores diferentes, em vez de livros, Maimaran observou o mesmo resultado: as crianças que escolheram um conjunto entre duas opções passaram o dobro do tempo brincando com os blocos em comparação com as crianças que escolheram dentre seis opções. 

Por que isso está acontecendo?

Maimaran diz que é necessário realizar mais pesquisas para entender o mecanismo exato detrás do efeito do número de opções no envolvimento das crianças. Mas suspeita que, quando os recursos cognitivos das crianças são dedicados ao ato de escolher algo, há pouca atenção e energia para aproveitar a coisa em si. Ao mesmo tempo, ela sugere que escolher a partir do conjunto maior pode ser uma tarefa envolvente por si só, especialmente para crianças, deixando-as com menos necessidade de se envolver com a opção que acabaram escolhendo.

Quando fazer escolhas é difícil, mas divertido

Além do envolvimento com sua escolha final, Maimaran também se perguntou como as crianças se sentiam sobre o ato de escolher.

Assim, em um outro estudo, perguntou-se às crianças em idade pré-escolar se achavam mais fácil ou mais difícil escolher a partir de um conjunto pequeno ou grande, bem como o que achavam que seria mais divertido escolher. O consenso foi que o conjunto pequeno tornaria a escolha mais fácil, mas a escolha a partir de um conjunto grande seria mais divertida.

E, por uma ampla margem, as crianças declararam que prefeririam escolher entre as opções de um conjunto grande.

É uma preferência desconcertante. Por que as crianças optam por fazer algo que acham mais difícil?

"Pode ser que o desejo de se divertir e aproveitar a atividade se sobrepõe à evasão de tarefas difíceis", propõe Maimaran.

Ou talvez as crianças sejam simplesmente atores racionais. Afinal, ela diz que, quanto mais opções você tiver, maior a probabilidade de encontrar uma que se adapte às suas necessidades, mesmo sendo um processo mais difícil.

No entanto, ao que parece, ser capaz de encontrar a opção mais adequada ainda não garante que você irá usá-la mais. 

Por que mais nem sempre é melhor


A pesquisa de Maimaran descobriu que oferecer muitas opções faz com que as crianças estejam menos propensas a se envolver com sua opção final. Os adultos reagem da mesma maneira. 

Estudos anteriores sugerem que a "sobrecarga de opções" em adultos pode levar a menor satisfação com a opção final, ou a total incapacidade de fazer uma escolha. No entanto, pelo fato de pouquíssimas pesquisas estudarem explicitamente o quanto os adultos utilizam sua opção final, é difícil para Maimaran prever se o comportamento que observou em crianças em idade pré-escolar seria válido ao longo de suas vidas. Afinal, os adultos, mais do que as crianças pequenas, podem sentir a necessidade de justificar seu longo processo de tomada de decisão envolvendo-se mais com sua opção.

Quando se trata de seus próprios filhos, Maimaran pôs em prática os resultados iniciais de sua pesquisa.
Quando fazem compras, ela identifica um pequeno subconjunto de opções e deixa os seus filhos escolherem dentre eles. “Isso é mais fácil on-line do que na loja", diz ela, "onde você se sente sobrecarregado, parado em frente a uma prateleira com tantas opções".