Ao estudar os fatores que afetam a governança corporativa, Carola Frydman descobriu uma tendência intrigante: os CEOs com experiência militar estão desaparecendo gradativamente do mercado. Entre as empresas de grande porte de capital aberto, a partir de 1980 a proporção de CEOs com histórico de serviço militar diminuiu em ordem de magnitude, de 59% para apenas 6,2%. Carola Frydman, professora associada de finanças da Kellogg School (em licença da Universidade de Boston), juntamente com Efraim Benmelech, professor de finanças da Kellogg School, já estavam pesquisando as personalidades individuais de liderança. Os dois decidiram investigar a influência que CEOs com histórico militar teriam sobre o comportamento das empresas que lideram.

"Para os economistas, não é necessariamente óbvio de que as características individuais afetam líderes corporativos", afirma Frydman. "Por algum tempo, os economistas pensavam que tudo se tratava da empresa como um todo, que o CEO mais eficaz era simplesmente qualquer pessoa que maximizaria valor através da implementação das políticas da empresa. Mas, agora, estamos mais interessados em tentar separar o quanto esses resultados se devem à empresa e o quanto pode ser atribuído à liderança individual".

Para Benmelech, que nasceu e cresceu em Israel, onde o serviço militar é obrigatório, a pergunta da pesquisa teve um apelo mais pessoal. "Eu servi o exército", diz ele, "então tinha um interesse especial em ver se esse tipo de experiência poderia demonstrar um impacto mensurável na vida civil". De fato, como descrito a seguir, os pesquisadores acreditam que os CEOs militares tendem a tomar decisões éticas e conservadoras e ser particularmente competentes em liderar as empresas sob pressão.

Em busca de soldados
Benmelech e Frydman reuniram dados biográficos dos principais executivos das 800 maiores empresas dos Estados Unidos a cada ano, entre 1980 e 1991, e de cerca de 1500 empresas de capital aberto dos Estados Unidos, entre 1992 e 2006. Os pesquisadores monitoraram se um determinado CEO havia servido as forças armadas e, em caso afirmativo, em que corporação, qual a graduação e por quanto tempo. "Foi um esforço gigantesco de coleta de dados", diz Benmelech. "Nossa equipe levou dois anos para reunir todos os dados".

A análise dos autores revelou três fortes associações entre CEOs com experiência militar e os resultados corporativos. A primeira não será surpresa para nenhum fã de filmes de guerra de Hollywood. "Em um setor que passa por uma curva em declínio ou alguma dificuldade, vimos que empresas administradas por CEOs com experiência militar apresentam desempenho melhor do que as de outros CEOs", diz Benmelech. "Eles desempenham melhor sob pressão. Nossa interpretação é a de que o serviço militar pode proporcionar preparo para uma pessoa tomar decisões difíceis e demonstrar liderança em tempos difíceis".

Benmelech e Frydman também demostraram outra associação entre CEOs militares e o comportamento corporativo conservador. Se um diretor executivo serviu o exército, é menos suscetível a fazer investimentos arrojados em capital físico ou pesquisa e desenvolvimento, em comparação com CEOs com experiência civil. No início, este resultado parecia contraditório, uma vez que muitos estudos psicológicos demonstram "que o serviço militar leva à agressividade, excesso de confiança e aumento da tomada de risco", como escrevem os autores. No entanto, diz Benmelech, "a maioria das forças militares modernas são organizações muito hierarquizadas com burocracias sofisticadas. E são incrivelmente boas no treinamento de soldados e comandantes para tomar decisões sem arriscar. O motivo, obviamente, é que a pessoa pode estar colocando a vida dos seus soldados em risco. Assim, embora seja verdade que soldados se envolvam em situações de maior risco do que os civis, há um profundo traço conservador na tomada de decisão militar".

Alguns homens e mulheres de honra
Mas o terceiro e "mais intrigante" resultado dos autores, diz Benmelech, é o de que os CEOs com experiência militar são bem menos propensos a se envolverem em fraudes corporativas do que seus pares com experiência exclusivamente civil, sendo de fato até 70% menos propensos. Então, por que as empresas não correm atrás de militares veteranos para preencher seus cargos executivos? Não é simplesmente pelo fato de não haver veteranos suficientes para todos. Embora Frydman e Benmelech advertem que suas descobertas não provam o mecanismo que está direcionando o fenômeno, porém oferecem duas hipóteses.

Uma possibilidade, segundo os autores, é a de que empresas com dificuldades no mercado, ou as que buscam evitar ou recuperar-se de fraudes, procuram ativamente diretores executivos com experiência militar para implementar suas políticas. "Isso seria um fenômeno associado por trás dos nossos resultados", explica Frydman, "aquele que se alinha mais com a visão de que as políticas corporativas da empresa como um todo são mais influentes do que os valores do CEO individual".

Uma explicação alternativa adota a abordagem oposta, atribuindo os resultados corporativos de investimento conservador, o melhor desempenho sob dificuldade econômica e o comportamento financeiro ético aos valores de caráter e liderança induzidos pelo serviço militar. "Pode ser que a experiência militar trás à tona essas características nas pessoas e, a partir daí, independentemente da empresa que liderem, agirão dessa maneira", diz Frydman. Benmelech concorda, com base em sua própria experiência como soldado. "As pessoas crescem muito no serviço militar", diz ele, "e a formação tem um impacto real no desenvolvimento de habilidades de liderança. Acho que o efeito que observamos provavelmente se deve a uma combinação de ambas as explicações possíveis".

Criando líderes melhores
Mas, embora os autores não irem a fundo na comprovação da causalidade de suas observações, sugerem que elas merecem maior exploração por parte das empresas e faculdades de administração. "Se quisermos encontrar uma forma de fazer com que pessoas com esses sistemas de valores se tornem líderes de negócios, talvez devêssemos levar em conta a experiência militar ao aceitar pessoas em programas de MBA", diz Benmelech. "Não estou sugerindo que deveríamos ter um campo de treinamento nas faculdades de administração. Mas devemos pensar em quais tipos de estudos de caso ou simulações poderíamos adotar para reproduzir situações difíceis".

Frydman acrescenta que o declínio histórico nos líderes empresariais com experiência militar também pode mudar dada à última década de guerras que os EUA travaram no Oriente Médio e no Afeganistão. Mesmo se isso não ocorrer, Benmelech diz que faz sentido se inspirar no treinamento militar para a liderança empresarial. "Pode-se dizer que o motivo dessas experiências militares terem um impacto tão forte é que elas podem ter sido literalmente vividas com o próprio sangue, o que jamais pode ser comparado com alunos que analisam estudos de casos difíceis", diz ele. "Mas tudo tem que ter um começo, assim podemos aprender com essas discussões, mesmo que os riscos não sejam tão elevados como os de em um campo de batalha".