Organizations Careers nov 2, 2015

Será que a cria­tivi­dade dá asas à superioridade?

Empre­sas que colo­cam fun­cionários cria­tivos em pedestal pro­movem o mau comportamento.

Yevgenia Nayberg

Based on the research of

Maryam Kouchaki

Lynne Vincent

Quan­do Lynn entrou na equipe admin­is­tra­ti­va de uma grande orques­tra sin­fôni­ca, ela sabia que o tra­bal­ho trazia uma mor­do­mia fan­tás­ti­ca: entradas gra­tu­itas para os con­cer­tos de alguns dos músi­cos mais tal­en­tosos do mundo.

Mas havia um preço por isso. Lynn logo perce­beu que ela teria de enfrentar muitos incô­mo­d­os com ess­es artis­tas. Por exem­p­lo, havia o caso do vocal­ista que pre­cisa­va de um segu­rança a pos­tos nos ensaios, pois tin­ha sur­tos de raivas vio­len­tís­si­mos se o tripé de par­ti­turas estivesse bam­bo ou alguém usasse muito per­fume per­to dele.

Hou­ve momen­tos em que eu ia a um con­cer­to, olha­va para as per­son­al­i­dades no pal­co e pen­sa­va: Você é um idio­ta. Nun­ca devolve seus doc­u­men­tos assi­na­dos den­tro do pra­zo. Você bateu de frente e gri­tou comi­go na sem­ana pas­sa­da”, diz Lynn, que pediu para usar ape­nas seu segun­do nome.

Pior do que isso, diz Lynn, esse tipo de com­por­ta­men­to em relação a ela e a todos os out­ros fun­cionários não atu­antes — aju­dantes no pal­co, eletricis­tas, pes­soal que entre­ga pan­fle­tos —não só era tol­er­a­do mas até aceito por causa do tal­en­to dos artistas.

Se alguém dissesse Não acho que isso este­ja cer­to’, ou ape­nas Puxa, eu não acred­i­to no que acabou de acon­te­cer’, você ouviria Bem, eles são assim mes­mo e nós temos que atu­rar isso’ ”, diz ela. Nat­u­ral­mente você tam­bém começa a acred­i­tar nisso”.

Histórias como essa podem pare­cer uma demon­stração do tem­pera­men­to típi­co” de artis­tas. Mas, de acor­do com uma nova pesquisa de Maryam Koucha­ki da Kel­logg School e de Lynne Vin­cent da Whit­man School of Man­age­ment da Uni­ver­si­dade de Syra­cuse, agir com ar de supe­ri­or­i­dade no tra­bal­ho não é sim­ples­mente o resul­ta­do de iden­ti­dade cria­ti­va. São necessárias cir­cun­stân­cias especí­fi­cas para provo­car esse tipo de mau com­por­ta­men­to: quan­do a cria­tivi­dade é vista como uma car­ac­terís­ti­ca rara atribuí­da ape­nas a alguns fun­cionários espe­ci­ais, ela fun­ciona como uma espé­cie de autor­iza­ção para que estes fun­cionários se com­portem mal.

E isso vale até mes­mo quan­do você não é cria­ti­vo, mas con­sid­era pos­suir essa característica.

Você não pre­cisa nec­es­sari­a­mente ter uma capaci­dade cria­ti­va real”, diz Koucha­ki. O que impor­ta, no final das con­tas, é a min­ha per­cepção de mim mesmo”.

Com­por­ta­men­to ques­tionáv­el e cria­tivi­dade
Koucha­ki, espe­cial­ista em éti­ca no tra­bal­ho, ficou inter­es­sa­da em estu­dar a cria­tivi­dade depois de se deparar com uma pesquisa argu­men­tan­do que esta car­ac­terís­ti­ca pode levar a decisões moral­mente ques­tionáveis. A pesquisa sug­e­ria ser pos­sív­el que a cria­tivi­dade não ajude alguém somente na descober­ta de uma nova solução para uma tare­fa difí­cil. Talvez ela tam­bém ajude alguém a inven­tar uma jus­ti­fica­ti­va para, dig­amos, aumen­tar o número de horas que pas­sou naque­la tarefa.

Mas Koucha­ki, pro­fes­so­ra assis­tente de gestão e orga­ni­za­ções, e Vin­cent imag­i­naram a pos­si­bil­i­dade de haver out­ra explicação.

Pen­samos que, por causa do val­or nor­mal­mente atribuí­do à cria­tivi­dade, as pes­soas cria­ti­vas podem real­mente ter um ar de supe­ri­or­i­dade, e este sen­so de supe­ri­or­i­dade pode levar a um com­por­ta­men­to mais des­on­esto”, diz Koucha­ki. Se você acha que merece mais do que out­ras pes­soas, quan­do está em uma situ­ação ten­ta­do­ra, este sen­ti­men­to o per­mite a agir com um com­por­ta­men­to mais egoísta”.

As pesquisado­ras con­ce­ber­am cin­co exper­i­men­tos que exam­i­nam a relação entre iden­ti­dade cria­ti­va, supe­ri­or­i­dade psi­cológ­i­ca e com­por­ta­men­tos desonestos.

Em um exper­i­men­to, os par­tic­i­pantes realizaram um teste de asso­ci­ação de palavras con­ce­bido para medir seu poten­cial cria­ti­vo. Em segui­da, cada par­tic­i­pante rece­beu uma de três men­sagens aleato­ri­a­mente. Um grupo foi comu­ni­ca­do de que se saíram bem em um teste de cria­tivi­dade e que aque­la cria­tivi­dade era rara, e out­ro grupo foi infor­ma­do de que foram bem no teste de cria­tivi­dade e que aque­la cria­tivi­dade era comum. Um ter­ceiro grupo de con­t­role foi infor­ma­do de que se saíram bem, mas sem men­cionar a criatividade.

Em segui­da, os par­tic­i­pantes entraram em um jogo para dis­putar uns dólares de prêmio em din­heiro. Durante o jogo, tiver­am a opor­tu­nidade de men­tir para o out­ro par­tic­i­pante a fim de aumen­tar sua própria parcela do prêmio.

Quan­do a cria­tivi­dade é con­sid­er­a­da rara
Os resul­ta­dos mostram que, quan­do os par­tic­i­pantes foram infor­ma­dos que eram cria­tivos, mas que o tipo de cria­tivi­dade era comum, não hou­ve nen­hum efeito adver­so sobre o com­por­ta­men­to. Foi quan­do foram infor­ma­dos de que eram excep­cional­mente cria­tivos que o mau com­por­ta­men­to ficou aparente.

Os par­tic­i­pantes que foram infor­ma­dos de que eram cria­tivos e de que a cria­tivi­dade era rara foram mais do que duas vezes mais propen­sos a men­tir aos seus par­ceiros no jogo do que os inte­grantes dos dois out­ros gru­pos. Esse mes­mo grupo tam­bém obteve uma pon­tu­ação muito maior em ter­mos de supe­ri­or­i­dade em um ques­tionário pós-jogo, que solic­i­ta­va aos par­tic­i­pantes avaliar o quan­to con­cor­davam com afir­mações como: Hon­es­ta­mente, sin­to que ser mais mere­ce­dor do que as demais pessoas”.

Em out­ras palavras, Koucha­ki diz é muito mais do que a sua iden­ti­dade ou a sua capaci­dade; tra­ta-se tam­bém das pes­soas ao seu redor. Sug­e­r­i­mos que, quan­do você está cer­ca­do por out­ras pes­soas cria­ti­vas, você não tem nec­es­sari­a­mente aque­le sen­so de supe­ri­or­i­dade. Você é tão espe­cial quan­to as out­ras pes­soas, porque todo mun­do é cria­ti­vo. Mas quan­do você est&aacuaacute; cer­ca­do por pes­soas não cria­ti­vas, seu sen­so de supe­ri­or­i­dade aumen­ta: Eu mereço um trata­men­to preferencial”.

O que sig­nifi­ca que talvez não ten­ha sido a cria­tivi­dade em si que fez com que um músi­co com quem Lynn tra­bal­hou gri­tasse de rai­va se alguém lhe trouxesse uma gar­rafa de água da mar­ca Fiji, em vez de Evian (“Sem exagero”, diz ela). Em vez dis­so, pode ter sido o fato de que, nesse ambi­ente de tra­bal­ho espe­cial, a cria­tivi­dade foi con­sid­er­a­da uma car­ac­terís­ti­ca per­ten­cente ape­nas a algu­mas pes­soas especiais.

Con­forme Lynn descreve: Sim­ples­mente não havia sub­sti­tu­tos para essas pes­soas. Não havia opção de demi­ti-los ou até mes­mo dis­ci­pliná-los por mau com­por­ta­men­to pois estavam entre os mel­hores do mun­do. Não havia out­ros 20 vio­lon­celis­tas ou flautis­tas bril­hantes fazen­do fila para tomar seus lugares”.

Incen­tive uma cul­tura de cria­tivi­dade“
Nem todos os exem­p­los de pes­soas cria­ti­vas se com­por­tan­do mal são tão dras­ti­cos. As histórias mais comuns são como as de Jason Roth­stein, que por vários anos geren­ciou o depar­ta­men­to de pro­dução cria­ti­va de uma empre­sa de design gráfico.

A mul­ti­mí­dia esta­va começan­do a se tornar impor­tante para os clientes, mas ape­nas um fun­cionário tin­ha essa habil­i­dade, diz Roth­stein. Era o úni­co que tin­ha uma sala pri­v­a­ti­va, definia seus próprios horários e tin­ha equipa­men­tos espe­cial­iza­dos reser­va­dos ape­nas para ele.

Esse cara cos­tu­ma­va diz­er às pes­soas que esta­va cobran­do 12 horas em um pro­je­to especí­fi­co, quan­do na ver­dade esta­va tra­bal­han­do em seus pro­je­tos par­tic­u­lares”, Roth­stein diz, ou de fato fazen­do qual­quer out­ra coisa, porque ninguém mais tin­ha exper­iên­cia para avaliar o que ele esta­va dizendo”.

Esse feu­do acabou grad­ual­mente à medi­da que as habil­i­dades em mul­ti­mí­dia tornaram-se mais comuns, diz ele. Afi­nal, é difí­cil ser esnobe quan­do qual­quer João, Maria e José tam­bém demon­stram os mes­mos tal­en­tos corre­dores afora.

É por isso que Koucha­ki recomen­da que as empre­sas evitem trans­mi­tir a men­sagem de que a cria­tivi­dade é um priv­ilé­gio de poucos fun­cionários. É impor­tante incen­ti­var uma cul­tura de cria­tivi­dade”, diz ela, em vez de reser­var um trata­men­to espe­cial para as pes­soas criativas”.

Assim, por exem­p­lo, a orques­tra de Lynn pode­ria ter enfa­ti­za­do que mes­mo os fun­cionários não artís­ti­cos pode­ri­am ser cria­tivos no modo como abor­davam a solução de problemas.

Out­ras fontes de supe­ri­or­i­dade?
Obvi­a­mente, a cria­tivi­dade nem sem­pre leva a com­por­ta­men­tos questionáveis.

Muitas orga­ni­za­ções hoje em dia se car­ac­ter­i­zam pela cria­tivi­dade, como a Apple”, diz Koucha­ki. Sendo assim, essas orga­ni­za­ções seri­am mais propen­sas a serem des­on­es­tas? É mui­ta ingenuidade pre­sumir isso” (Não impor­ta como você se sente a respeito da atu­al­iza­ção para o iOS 9).

Ain­da assim, a pesquisa de Koucha­ki pro­por­ciona um man­da­do claro para as empre­sas que esper­am atrair e reter fun­cionários cria­tivos, sem afas­tar todos os demais do processo.

Pesquisas futuras podem deter­mi­nar que este con­sel­ho tam­bém se apli­ca a out­ros atrib­u­tos, como riqueza, sta­tus social ou geren­cial. Se uma empre­sa pro­move uma cul­tura em que as habil­i­dades de lid­er­ança ou con­hec­i­men­tos em tec­nolo­gia são restri­tos a pou­cas pes­soas, tam­bém pode pro­mover a supe­ri­or­i­dade, a des­on­esti­dade, ou ambos nes­tas mes­mas pessoas.

E se você for um fun­cionário deste tipo de orga­ni­za­ção? Há sem­pre o cam­in­ho que Lynn final­mente escolheu.

Após sete anos de desabafo com os cole­gas de tra­bal­ho, bus­car con­so­lo na bebi­da após o expe­di­ente e, even­tual­mente, chorar na sua sala, pediu demissão.

Eu sim­ples­mente não que­ria mais faz­er parte daqui­lo”, diz ela. Em últi­ma análise, min­ha opção era lidar com isso ou sair, porque a coisa não iria mudar”.

Mas há um lado pos­i­ti­vo, ela diz: Com o pas­sar do tem­po e estando longe deles, eu sou nova­mente capaz de apre­ciar o que fazem em ter­mos de músi­ca. Ain­da vou aos seus con­cer­tos. Eu só não quero mais tra­bal­har naque­le ambiente”.

Featured Faculty

Maryam Kouchaki

Associate Professor of Management & Organizations

About the Writer

Anne Ford is a writer in Evanston, Illinois.

About the Research

Vincent, Lynne, and Maryam Kouchaki. In press. “Creative, Rare, Entitled, and Dishonest: How Commonality of Creativity in One’s Group Decreases an Individual’s Entitlement and Dishonesty. Academy of Management Journal.

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