O álcool, um grande componente da vida cultural da Rússia, também é altamente tóxico.

As bebidas alcoólicas não só levam os homens russos a falecerem, em média, 12 anos antes do que os homens norte-americanos, mas também faz com que morram antes do que os homens em países extremamente pobres, como Bangladesh e Coréia do Norte (cerca de cinco e dois anos, respectivamente). Nesse sentido, a Organização Mundial da Saúde descobriu que uma em cada cinco mortes entre homens russos se deve ao uso excessivo de bebidas alcoólicas. A morte pode ocorrer de várias formas, como o envenenamento por alto teor de álcool, acidentes ao dirigir embriagado ou homicídios causados sob a influência de álcool.

No entanto, alguns homens russos parecem escapar do pior destes efeitos, graças a uma restrição de curta duração do governo desse país em relação a bebidas alcoólicas, concluído há 25 anos.

Como poderia uma intervenção breve e já há tempos extinta estar afetando a saúde pública da população contemporânea? Essa é a pergunta no centro das pesquisas recentes de Lorenz Kueng, professor assistente de finanças da Kellogg School.

Para encontrar a resposta, ele investigou a política de bebidas alcoólicas da era soviética, tendências históricas no consumo de bebidas alcoólicas caseiras na Rússia e preferências atuais de bebidas alcoólicas.

Kueng, em parceria com Evgeny Yakovlev, da Nova Escola de Economia da Rússia, descobriu que as restrições governamentais de décadas atrás ensinaram alguns consumidores a preferir, acidentalmente porém de forma permanente, bebidas com menor teor alcoólico. Esta mudança, juntamente com as alterações subsequentes no mercado de bebidas alcoólicas após o colapso da União Soviética, aumentou a expectativa de vida dos homens hoje e essa tendência deve continuar a aumentar no futuro.

UMA BREVE POLÍTICA ANTI-ÁLCOOL

Tudo começou em 1985.

Naquela época, "era óbvio que a baixa expectativa de vida dos homens era um grande problema para a economia soviética", diz Kueng.

Em resposta, Mikhail Gorbachev aumentou o preço da vodca, da cerveja e do vinho. Aumentou também as multas por embriaguez pública, proibiu restaurantes de vender bebidas alcoólicas antes das 14h00 e implementou diversas outras medidas destinadas a combater o alcoolismo desenfreado.

"Foi uma economia planejada extremamente eficaz", diz Kueng. De fato, as vendas de cerveja caíram 29%, as de vinho caíram 63% e as de vodca caíram 60%.

No entanto, assim como ocorreu nos Estados Unidos durante a era da Proibição, a produção ilegal de bebidas alcoólicas aumentou drasticamente após as restrições entrarem em vigor. Na Rússia, as bebidas alcoólicas ilegais tomaram a forma de samogon, um licor forte, parecido com destilado, que era produzido apenas em áreas rurais, "porque é necessário um espaço bastante grande [para fabricar], e porque produz um cheiro facilmente detectável", explica Kueng. "Por isso, o samogon era consumido muito mais em áreas rurais".

Entretanto, com pouco acesso ao samogon, muitos consumidores urbanos que bebiam vodca antes das restrições agora se passaram a beber cerveja. Isso se deu porque, diante das restrições, o preço da vodca subiu mais que o preço da cerveja.

Mesmo depois de levar em conta o efeito do samogon, estimou-se que a campanha anti-álcool reduziu o consumo total de bebidas alcoólicas na Rússia em cerca de um terço, mas apenas durante a época em que as restrições vigoraram. Após a queda da União Soviética, em 1991, a campanha também entrou em colapso e as bebidas alcoólicas se tornaram novamente amplamente disponíveis. Não só isso, mas logo após a mudança do regime, a indústria de cerveja expandiu rapidamente, expondo os consumidores a muitos mais tipos de cerveja do que antes estava disponível no regime soviético.

MUDANÇAS NO CONSUMO DE BEBIDAS ALCOÓLICAS

Kueng e Yakovlev se perguntaram como a campanha anti-álcool e a subsequente expansão do mercado de cerveja pode ter afetado as preferências de consumo dos adultos que atingiram a idade legal de consumo nesse período. Para descobrir, eles se voltaram para a Pesquisa de Monitoramento Longitudinal da Rússia, uma série de pesquisas destinadas a controlar os efeitos das reformas russas sobre a saúde econômica e o bem-estar das famílias e indivíduos.

Os dados revelam que os consumidores com cerca de 16 a 22 anos de idade e residentes em áreas urbanas durante a campanha anti-álcool preferem, até os dias de hoje, bebidas de baixo teor alcoólico, como a cerveja. O mesmo se dá para os consumidores que tinham essa idade durante a rápida expansão do mercado de cerveja após o fim da União Soviética.

Entretanto, os consumidores entre 16 e 22 anos que viviam em áreas rurais durante a campanha anti-álcool, ou seja, aqueles que tinham maior probabilidade de ter acesso ao samogon, ainda preferem bebidas destiladas, como a vodca.

Qual a consistência dessas preferências ao longo do tempo? Kueng coloca desta forma: "Se eu souber suas preferências de consumo aos 22 anos, posso prever suas preferências de consumo cerca de 20 anos mais tarde".

Estas conclusões se tornam ainda mais importantes quando combinadas com os dados sobre tendências recentes na expectativa de vida dos homens russos.

Ainda que essas expectativas sejam baixas, elas na verdade melhoraram bastante nos últimos anos: desde o início dos anos 2000, quando seria possível observar o impacto das restrições soviéticas nas taxas de mortalidade do sexo masculino, essa taxa caiu em cerca de um terço.

Comparando as taxas de mortalidade entre os que continuaram a beber a mesma quantidade de bebidas alcoólicas puras, sob a forma de bebidas destiladas, e os que passaram a consumir esse montante na forma de bebidas alcoólicas leves, Kueng e Yakovlev puderam atribuir um total de 60% desse efeito às mudanças nas preferências de bebidas alcoólicas causadas pela campanha anti-álcool de Gorbachev e a subsequente expansão do mercado de cerveja décadas atrás. É muito mais provável que uma pessoa abuse no consumo de vodca do que de cerveja e, portanto, morra de envenenamento por álcool ou em um acidente relacionado a bebidas alcoólicas. Outros 15% da redução, dizem os pesquisadores, se deve à redução do nível de bebidas alcoólicas puras consumidas.

Eles estimam que os mesmos fatores farão com que a mortalidade de homens russos diminua em mais 25% nos próximos 20 anos.

"O aumento da expectativa de vida ocorrerá simplesmente porque as novas gerações estarão mais acostumadas com bebidas alcoólicas leves e substituirão as gerações mais velhas que tinham fortes preferências pelas bebidas destiladas", escrevem eles.

MUDANÇAS DE CURTO PRAZO, RESULTADOS DE LONGO PRAZO

Tudo isso é uma ótima notícia para os homens russos (e as pessoas que os amam). Mas como as descobertas de Kueng e Yakovlev poderiam ser aplicadas em outras áreas?

O mundo do marketing, pelo menos, já está ciente que as preferências se formam pelos consumidores em uma idade relativamente jovem, diz Kueng. "Isso é parte do motivo pelo qual deve-se pagar mais por um anúncio voltado aos consumidores mais jovens", diz ele. "Presumivelmente, isso ocorre porque deseja-se atingir os consumidores na fase em que formam suas preferências. Acredito que os marqueteiros estão à frente dos economistas por pensarem desta forma".

O mais interessante, diz ele, é a constatação de que "a restrição de bebidas alcoólicas pode ser uma política eficaz de saúde pública, especialmente se estiver voltada aos consumidores mais jovens".

"Há uma diferença entre a restrição de bebidas alcoólicas e, digamos, tributar a venda de álcool", diz Kueng. "O imposto sobre as vendas é um instrumento muito bruto porque afeta todo mundo. Se for introduzido um imposto sobre as vendas, isto não impedirá que os jovens consumam em excesso. É muito mais eficaz impor restrições na idade em que se pode começar a beber".

Em sua opinião, no entanto, a principal constatação é a de que as políticas públicas destinadas aos jovens consumidores podem afetá-los tanto no curto quanto no longo prazo, alterando suas preferências de consumo.

"De forma geral, isso é considerado excepcional em uma intervenção típica da política econômica para alterar preferências", ele ressalta. "Ainda assim, não fomos os primeiros a elaborar um trabalho que pensa sobre o assunto. O difícil é documentar isso empiricamente. Esse era o desafio.

"Há muitos estudos que mostram que uma política intencional simplesmente não funciona", continua ele. "Por exemplo, se o imposto for removido da venda de alguma coisa, geralmente as pessoas voltam a consumir essas coisas como faziam antes. Não significa que toda intervenção tem um efeito de longa duração". Mas esta teve.