Podemos ser tendenciosos em relação à raça quando nem nos damos conta de que, inicialmente, fomos expostos à raça?


Os preconceitos raciais surgem na infância. Mesmo bebês de três meses preferem rostos da sua própria raça, enquanto que crianças de 4 e 5 anos já demonstram preconceitos contra grupos raciais considerados inferiores.

Grande parte desse preconceito ocorre inconscientemente, diz Galen Bodenhausen, professor de marketing da Kellogg School e professor de psicologia na Weinberg College da Northwestern University. Os estereótipos baseados em raça, gênero ou outras características podem mudar a maneira como interpretamos e reagimos às experiências sociais sem que nem sequer percebamos.

A conscientização pública dos preconceitos inconscientes ou "implícitos" aumentou muito ao longo dos anos. Discussões sobre preconceitos implícitos surgiram durante a recente eleição presidencial (os eleitores eram inconscientemente tendenciosos contra Hillary Clinton por ela ser mulher?), bem como durante os recentes protestos contra o  comportamento policial agressivo (estariam os policiais mais propensos a suspeitar de indivíduos negros ou hispânicos do que de brancos, mesmo aqueles que acreditam ser imparciais?). 

Porém a maioria das discussões de viés racial implícito—tanto nos círculos acadêmicos como nas páginas de jornais—explora as suposições inconscientes que fazemos sobre as pessoas com base no grupo racial que conscientemente lhes atribuímos.

Será que precisamos perceber conscientemente a raça de uma pessoa para sermos influenciados por ela? O que acontece se não reconhecermos explicitamente que uma pessoa parece ser, por exemplo, hispânica, porque nossa mente não está ciente do que viu? 

Uma nova pesquisa de autoria de Bodenhausen e seus colegas explora o viés implícito apenas desse ângulo. Bodenhausen, juntamente com os pesquisadores chineses e australianos Jie Yuan, Xiaoqing Hu, Yuhao Lu e Shimin Fu, acreditam que as pessoas podem de fato ser influenciadas por raça, mesmo quando não têm nenhuma consciência de que a informação racial foi apresentada. Suas descobertas têm implicações importantes sobre como as pessoas fazem julgamentos e tomam decisões em uma ampla gama de domínios públicos e privados.

"Devemos estar dispostos a admitir que não conhecemos nossas próprias mentes de forma tão completa e transparente quanto gostaríamos de pensar", diz Bodenhausen.

Criando rostos "invisíveis"

Como a equipe estudou a influência de informações raciais que as pessoas não podem detectar conscientemente?

Expondo as pessoas a rostos "invisíveis".

Como explica Bodenhausen, a maioria das pesquisas anteriores sobre tendências raciais inconscientes se baseava em uma técnica chamada "mascaramento". A técnica utiliza um estímulo (por exemplo, um rosto afro-americano) que é apresentado de forma extremamente breve aos participantes do estudo, seguido imediatamente de uma máscara visual, como um padrão de pontos aleatórios. As pessoas geralmente relatam que viram apenas o padrão de pontos aleatório, não o rosto. 

"No entanto, alguns críticos argumentaram que pode ter havido uma consciência breve e fugaz do rosto neste procedimento de mascaramento", diz Bodenhausen. “Mais tarde, quando respondiam perguntas sobre isso, os participantes normalmente esqueciam do rosto, mas no momento em que foi apresentado, talvez estivessem, pelo menos, muito brevemente cientes disso.

Para garantir que estavam estudando a influência da raça em condições onde os participantes realmente não tinham total consciência do que veem, os pesquisadores usaram uma nova técnica chamada "supressão por flash contínua" (CFS, na sigla em inglês). A abordagem envolve a apresentação de imagens distintas para cada olho. "Todos têm um olho dominante", diz Bodenhausen, "da mesma forma que se tem uma mão dominante". Assim, a equipe apresentou um padrão colorido, dinâmico e atraente para o olho dominante dos participantes e um rosto para o não dominante.

“Devido a algo chamado ‘rivalidade binocular’, diz Bodenhausen, "nossa experiência consciente focaliza inicialmente a imagem apresentada ao olho dominante". Ou seja, o olho dominante geralmente ganha a competição entre os olhos pela atenção do cérebro. No caso desta pesquisa, isso significava que as pessoas não tinham consciência total do rosto, tornando-o efetivamente invisível.

A equipe usou a CFS com 70 estudantes universitários chineses para lhes apresentar rostos de pessoas de seu próprio grupo racial (chinês), bem como rostos de pessoas de outra raça (branco europeu). Em seguida, mostraram aos participantes palavras escritas e mediram a rapidez com que categorizaram essas palavras como positivas (filhote de cachorro, luz do sol) ou negativas (baratas, vômito).

A partir de estudos existentes, os pesquisadores sabiam que, quando as pessoas estavam totalmente conscientes da visão de um rosto do "próprio grupo", elas tendiam a categorizar as palavras positivas mais rapidamente, enquanto a consciência total de um rosto de "outro grupo" dava vantagem às palavras negativas. Será que essas tendências ocorreriam mesmo quando as pessoas não tinham consciência total da exposição aos rostos do próprio grupo ou de outro grupo—ou mesmo a rosto algum? 

Rostos invisíveis, tendência visível

Como os pesquisadores previam, mesmo esses rostos "invisíveis" de outro grupo resultaram em preconceito negativo: as pessoas categorizaram palavras negativas mais rapidamente após a exposição inconsciente a rostos de outras raças que não as suas.

"Este resultado fornece provas inéditas de que podemos realmente ser influenciados pela raça sem sequer prestar qualquer atenção consciente a ela", diz Bodenhausen. "Nossas descobertas aumentam os argumentos na crença de que a raça pode nos influenciar de maneira muito automática". Curiosamente, os rostos invisíveis do próprio grupo não produziram provas de tendências, sugerindo que as reações positivas associadas com a visão de membros do seu próprio grupo talvez dependam ao menos de uma conscientização mínima do membro do próprio grupo. 

Bodenhausen enfatiza que são necessárias pesquisas adicionais para entender melhor a natureza e os limites dos preconceitos inconscientes de raças.

Ele também aponta a necessidade de ir além de uma "simples dicotomia entre dentro e fora do grupo ou positivo e negativo" nos estudos de preconceitos raciais e outros tipos de tendências. Por exemplo, as pessoas podem ter uma reação emocional positiva em relação a uma mulher, mas continuam céticos de que ela seria boa líder. Ou seja, a tendência em relação às mulheres não pode ser simplesmente uma questão de não gostar das mulheres em geral, mas sim de ter estereótipos sobre o papel que as mulheres devem ocupar. "Seria muito interessante ver se esses tipos de preconceitos um pouco mais matizados também aparecem em situações onde a informação de gênero não está conscientemente visível", diz Bodenhausen. 

Lembre-se sempre

Os psicólogos de pesquisas sabem há muito tempo que muitos aspectos da percepção e do julgamento ocorrem automaticamente, sem o nosso conhecimento. No entanto, continuamos muito bons em convencer a nós mesmos de que nosso próprio comportamento e julgamento se baseiam, ao contrário, na deliberação consciente de fatos objetivos. Bodenhausen espera que essa nova pesquisa ajude a mudar esse predicamento. 

"Nosso estudo nos convida a ser um pouco mais realista sobre os limites de nossa autopercepção", conclui. “Isso pode ser especialmente importante reconhecer se estivermos em posição de tomar decisões importantes sobre os membros de outros grupos raciais".