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John L. & Helen Kellogg Professor of Finance
Assistant Professor of Finance

Lisa Röper
Por mais de um século, o impacto da tecnologia no mercado de trabalho sempre segue uma tendência clara: à medida que as máquinas assumem as tarefas manuais, as funções manuais sofrem. Por outro lado, as funções administrativas prosperavam.
No entanto, a IA parece destinada a criar uma tendência quase que oposta. É provável que a capacidade da IA de realizar tarefas administrativas, como redação publicitária e análise de dados, venha a prejudicar mais as funções administrativas do que as manuais, onde habilidades práticas continuam sendo importantes.
De certa forma, "a IA está fazendo voltarmos no tempo", diz Bryan Seegmiller , professor assistente de finanças da Kellogg.
A pesquisa de Seegmiller e seus colegas apoia essa previsão. Eles usaram grandes modelos de linguagem para analisar quase 200 anos de dados sobre inovações tecnológicas e tipos de trabalhos e descobriram que, à medida que o uso da IA avança no ambiente de trabalho, a demanda relativa por funções administrativas diminui, enquanto as funções manuais conquistam uma parcela maior da força de trabalho.
A equipe incluiu Huben Liu, doutorando em finanças da Kellogg; Dimitris Papanikolaou , professor de finanças da Kellogg; e Lawrence Schmidt, da MIT Sloan School of Management.
As descobertas dos pesquisadores põe em maior destaque um padrão mais recente, iniciado no final do século XX, em que a tecnologia tem substituído cada vez mais tarefas cognitivas comuns em funções administrativas. "Essa é uma tendência que vem se consolidando há 50 anos", afirma Seegmiller.
Isso não significa que os alunos universitários devam abandonar os estudos imediatamente e se tornarem encanadores. Porém, eles devem se concentrar em habilidades que a IA ainda não consegue substituir e usar a IA de forma a obter melhor desempenho em outras áreas de seus trabalhos, acrescenta Seegmiller.
“É preciso se ter uma apreciação saudável e respeito pelas forças tecnológicas”, diz ele, “e entender as forças que atuam em seu favor e as que estão contra você.”
Seegmiller e seus colaboradores descobriram que, quando a IA substituiu diretamente a maioria das tarefas em empregos exercidos entre 2014 e 2023, ocorreu uma redução na demanda por trabalhadores humanos em cada área específica. Porém, se a IA assumiu apenas um subconjunto das tarefas de uma determinada profissão, o efeito da tecnologia sobre o emprego foi, na verdade, positivo.
Os pesquisadores questionaram se, ao longo da história, esse padrão se apresentou de forma mais ampla em outras tecnologias. Se a resposta fosse positiva, poderia fornecer um ponto de referência para prever o que poderia acontecer com o mercado de trabalho à medida que a IA fique cada vez melhor.
“Queremos sempre saber como tudo vai acontecer no futuro”, diz Seegmiller. “Porém, só temos a capacidade de aprender com o passado”.
Para este estudo, a equipe coletou dados sobre patentes tecnológicas de 1850 a 2024, de métodos de produção de aço até sistemas de comércio eletrônico. Também utilizaram um modelo de linguagem abrangente para gerar descrições de tarefas para empregos listados no Censo dos EUA durante o mesmo período.
Em seguida, compararam o texto das patentes com as descrições das tarefas de trabalho em cada década, utilizando as técnicas de processamento de linguagem natural que haviam desenvolvido em pesquisas anteriores sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho. Sempre que a descrição de uma tecnologia patenteada e uma tarefa de trabalho apresentavam grande similaridade, essa tarefa era considerada "exposta" à tecnologia. Em outras palavras, a tecnologia tinha o potencial de substituir um trabalhador humano para tal tarefa.
Como era de se esperar, a partir de meados do século XIX, as tarefas manuais foram, de longe, as mais expostas à tecnologia. Assim, por volta de meados do século XX, ocorreu uma mudança importante: graças aos avanços nos computadores e na TI, as tarefas cognitivas tornaram-se progressivamente mais expostas à tecnologia, embora as manuais ainda permanecessem as mais expostas em termos gerais.
Em uma análise realizada a partir de 1910, os pesquisadores descobriram que maior exposição à tecnologia geralmente prejudicava o crescimento do emprego em uma determinada função. No entanto, se a exposição se limitasse a um pequeno subconjunto de tarefas, na verdade ela beneficiava o crescimento do emprego nessa função, pois permitia que os trabalhadores concentrassem sua atenção em outras tarefas.
Em suma, os resultados confirmaram que as forças históricas que impulsionam os efeitos da mudança tecnológica em relação aos empregos apresentam paralelos importantes com a forma provável do impacto que a IA terá nos mercados de trabalho. Como observa Seegmiller, “Embora possa parecer que as capacidades da IA não têm precedentes, ela é semelhante às tecnologias anteriores em alguns aspectos importantes: a capacidade de realocar esforços para tarefas ainda não expostas dentro de um trabalho sempre ajuda a reduzir o impacto negativo, e as habilidades interpessoais sempre parecem ser as menos expostas”.
Em seguida, a equipe calculou o efeito líquido da exposição à tecnologia e à inovação em diferentes grupos de tipos de função.
Eles descobriram que, ao longo do século XX, as funções mais bem remuneradas geralmente se beneficiaram da tecnologia, assim como as que exigiam um nível mais elevado de escolaridade e funções que empregavam mais mulheres, como por exemplo, cargos administrativos e de escritório. Em contrapartida, os empregos de ofício "de qualificação média" com salários mais baixos, como os de transporte e manufatura, que normalmente empregavam mais homens, sofreram com a mudança.
No entanto, quando os pesquisadores usaram um modelo matemático para simular como a IA afetaria diferentes funções nos próximos 5 a 10 anos, o cenário que surgiu se alinhou com uma trajetória mais recente. A previsão é de que a IA diminuirá a demanda relativa por funções administrativas. Nesse sentido, o modelo prevê “uma inversão das tendências anteriores”, afirma Seegmiller.
Mais especificamente, a projeção indicou uma queda na demanda por empregos que exigem alto nível de escolaridade em comparação com os que exigem menos escolaridade. Ao mesmo tempo, a demanda por empregos que exigem um nível médio de escolaridade seria a que sofreria maior queda. Também previa uma queda na demanda por empregos tradicionalmente mais bem remunerados, como cargos administrativos, técnicos e gerenciais. Por fim, a demanda por empregos com maior participação feminina cairia em comparação com empregos com maior participação masculina.
Isso não significa que o número total de funções manuais necessariamente aumentará. Ao contrário: essa previsão sugere que, dos empregos que permanecerem em um mundo pós-IA, a maior fração provavelmente se enquadrará nessa categoria.
Essa reversão das tendências passadas, impulsionada pela IA, reflete uma diferença essencial entre a IA e outras transformações tecnológicas do passado. “Enquanto as tecnologias anteriores sempre apresentavam uma mistura de trabalho manual e cognitivo, as tecnologias de IA, na verdade, se concentram em funções administrativas, focadas em tarefas cognitivas", diz Seegmiller.
Embora a resposta de alguns funcionários administrativos possa ser a de considerar a mudança para uma profissão menos exposta à IA, Seegmiller aconselha que as pessoas abordem as conclusões do estudo com cautela.
As previsões do modelo são generalizações, diz ele. E mesmo em profissões fortemente afetadas pela IA, "há maneiras de se diferenciar".
Por exemplo, à medida que a IA automatiza algumas tarefas, os trabalhadores podem se concentrar no desenvolvimento de habilidades que exigem um toque humano, como comunicação interpessoal, colaboração e pensamento criativo. Ao longo do período do estudo, pouquíssimas tarefas interpessoais foram substituídas pela tecnologia, e Seegmiller acredita que isso continuará sendo o caso, “mesmo que o ChatGPT possa simular até mesmo o papel de terapeuta”.
Os trabalhadores também podem aumentar sua produtividade usando IA para realizar tarefas mais simples, o que pode permitir que "se concentrem na parte em que agregam valor", diz ele. “Por exemplo, usar essas ferramentas para se tornarem mais produtivos na geração de ideias ou na visão do todo".
Ainda assim, os pesquisadores reconhecem que não há respostas fáceis sobre como os trabalhadores devam lidar com as mudanças sísmicas por vir.
“Não existe uma fórmula mágica”, diz Seegmiller. No entanto, ao considerar cuidadosamente como a tecnologia pode prejudicar e também ajudar, é possível “tomar decisões conscientes sobre como investir em si mesmo”.
Roberta Kwok is a freelance writer in Kirkland, Washington.
Liu, Huben, Dimitris Papanikolaou, Lawrence D.W. Schmidt, and Bryan Seegmiller. 2025. “Technology and Labor Markets: Past, Present, and Future; Evidence from Two Centuries of Innovation.” Working paper.