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O que um célebre enólogo pode nos ensinar sobre liderança
Leadership jun. 5, 2026

O que um célebre enólogo pode nos ensinar sobre liderança

Um renomado viticultor ajudou a transformar o Vale do Douro, em Portugal, em uma das grandes regiões vinícolas do mundo. Sua filosofia tem valor que vai além do vinhedo.

Michael Meier

Based on insights from

António Magalhães

Sergio Rebelo

O Vale do Douro pode não parecer ser um lugar para se aprender sobre liderança. Seus solos são pobres, suas encostas implacavelmente íngremes e toda colheita está à mercê do clima. No entanto, após uma vida inteira dedicada ao cultivo de vinhedos na região, António Magalhães desenvolveu uma filosofia de liderança tão singular quanto os vinhos ali produzidos.

Os vinhedos da região têm uma longa tradição de produzir alguns dos melhores vinhos de mesa e vinhos do Porto do mundo. António foi viticultor-chefe da Taylor Fladgate, uma das mais renomadas casas de vinho do Porto, por mais de trinta anos.

Segundo Sergio Rebelo , professor de finanças na Kellogg School e entusiasta do vinho português, “Ao longo da carreira no Douro, António ficou conhecido não só pela produção de uvas excepcionais, mas também pela combinação de rigor científico, perspectiva histórica, discernimento prático e profundo respeito pelas pessoas que trabalham a terra”.

Depois de António se aposentar, Rebelo deu início a uma série de conversas com o enólogo (documentadas no blog Salt of Portugal ) sobre as lições que aprendeu com sua carreira nos vinhedos. A Kellogg Insight conversou com Rebelo sobre o que essa vocação singular pode nos ensinar sobre liderança empresarial.

Crie resiliência antes de precisar dela

Uma das práticas mais antigas do Douro é, à primeira vista, ineficiente: os viticultores plantam diferentes variedades de uva no mesmo vinhedo. Como as diversas variedades costumam amadurecer a ritmos diferentes, podem precisar serem colhidas em tempos diferentes.

No entanto, as “misturas de campo” atuam como uma barreira contra a propagação de vírus e fungos, porque as variedades de uva têm sensibilidades diferentes a determinadas doenças.

“Juntas, elas se tornam muito mais resistentes do que qualquer variedade isoladamente”, diz Rebelo.

“A tendência recente no Vale do Douro é plantar apenas as quatro principais variedades de uva”, diz Rebelo. “A lógica é: 'estas são ótimas, então por que plantar outras?' Mas o António discorda desta abordagem”.

Ele defende o plantio de diferentes variedades de uva e o cultivo de vinhedos em diferentes altitudes e exposições, oferecendo aos viticultores uma paleta mais ampla para confeccionar os vinhos.

Em alguns anos, uma determinada variedade de uva pode parecer desnecessária. Então vem a seca, uma onda de calor ou uma estação excepcionalmente chuvosa, e essa variedade esquecida torna-se essencial.

Rebelo vê um paralelo direto com o mundo dos negócios. A diversificação em produtos, mercados, fornecedores e fontes de financiamento pode parecer ineficiente em tempos de bonança. Mas a resiliência prepara o viticultor para futuros para os quais é impossível prever.

Escute a paisagem

À primeira vista, o Vale do Douro não parece nada ideal para a viticultura. Possui solos muito pobres, com pouca matéria orgânica. As colinas são compostas predominantemente por uma rocha semelhante ao xisto, chamada de xisto argiloso, que foi quebrada primeiro com picaretas e depois com britadeiras, para que os vinhedos pudessem ser plantados.

Comparadas com regiões de terreno plano e solo fértil, os vinhedos do Douro produzem um volume menor. No entanto, o que se perde em quantidade é mais do que compensado pela qualidade das uvas e pela longevidade dos vinhedos.

“As videiras prosperam porque precisam lutar”, diz Rebelo. “A adversidade força a videira a criar raízes profundas. Muitas vezes, o mesmo acontece com as pessoas e organizações”.

Para António, a liderança começa com a observação. Antes de mudar um sistema, é preciso compreender os motivos de ele ter evoluído da maneira que evoluiu.

No Vale do Douro, esse aspecto significa ter uma percepção aguçada de quais uvas se adaptam melhor a cada local. Mudar o cultivo para a encosta à leste do vale ou para um socalco mais acima em um desfiladeiro pode fazer uma enorme diferença nos vinhos produzidos na região.

“Escute o que a paisagem lhe diz”, diz António. “Os muros antigos indicam onde os vinhedos de outrora sobreviveram sem irrigação. Os socalcos abandonados muitas vezes marcam os limites para além dos quais a qualidade se torna incerta. As melhores lições estão escritas na pedra, não nos mapas”.

António vê o conhecimento acumulado pelas gerações anteriores como um patrimônio estratégico, e não como uma mera curiosidade histórica. Ele também se mostra cético quanto à introdução de ideias e técnicas agrícolas de outras regiões no Vale do Douro, presumindo que estas darão certo.

No entanto, António não é um tradicionalista simplesmente por mera tradição. Ele está disposto a experimentar e aprender com outras áreas. Depois de visitar um vinhedo na Califórnia, ele e o enólogo-chefe da Taylor's, David Guimarães, repensaram a forma como os socalcos eram construídos no Douro.

Eles perceberam que uma leve inclinação de três graus permitiria que a água da chuva escoasse naturalmente, sem erodir o precioso solo. Adaptando a tecnologia a laser originalmente desenvolvida para o nivelamento de arrozais, redesenharam os socalcos com extraordinária precisão. A inovação se espalhou por toda a região, remodelando a gestão dos vinhedos e ajudando os viticultores do Douro a lidar melhor com as chuvas cada vez mais intensas.

Tenha a paciência para observar e a coragem para esperar

Antônio insiste que, ao adquirir um vinhedo, a última coisa a fazer é ter pressa para fazer alterações radicais ou a renová-lo completamente. Ao contrário, é preciso dedicar tempo para observar, aprender, experimentar e refletir sobre como quaisquer alterações afetam a colheita.

“Nas empresas, muitos novos líderes sentem-se pressionados para deixar sua marca imediatamente após ocuparem o cargo”, diz Rebelo. “O impulso de agir pode ser difícil de resistir. Mas os vinhedos nos ensinam uma lição diferente: observe com atenção antes de agir, porque as consequências das decisões do momento atual podem não ficar visíveis por muitos anos”.

Ele se lembra de uma tentativa anterior de construir socalcos mais amplos que facilitariam a colheita. Na época, a ideia pareceu sensata. Somente anos depois os viticultores descobriram que uma mudança destinada a melhorar a eficiência havia enfraquecido tanto a qualidade das uvas quanto a resiliência dos vinhedos.

Em 1992, António passou por uma lição sobre a importância de esperar o momento certo para a colheita. Dia após dia se passava sem que as uvas atingissem total maturação. Muitos produtores fizera a colheita assim mesmo. Mas a equipe da Taylor optou por aguardar, sabendo que era necessário um pouco mais de chuva para refinar as uvas.

A paciência deles foi recompensada de forma extraordinária. A chuva chegou e as uvas atingiram a maturação completa. O vinho Vintage Port de 1992 da Taylor’s receberia a pontuação máxima do crítico de vinhos Robert Parker. O acontecimento ensinou ao António que, às vezes, liderança exige a coragem de esperar quando outros estão com pressa.

Respeite quem trabalha

António afirma que “O trabalho agrícola é árduo e quem o realiza merece nosso total respeito. Nunca peça a ninguém que faça uma tarefa sem antes explicar seu propósito e importância”.

Essa filosofia ajuda a explicar a extraordinária lealdade que ele inspira.

“Mesmo sendo a pessoa responsável, ele trata todos com respeito”, diz Rebelo. “Ele incentiva pessoas de todos os níveis da organização a contribuírem com ideias e ajudarem a resolver problemas”.

António também se sente responsável por preparar a próxima geração de viticultores. Na sua visão, liderança não se mede pelo que se alcança pessoalmente, mas sim pelo legado que se deixa. Essa filosofia norteia a forma como trabalha com sua equipe.

Ele incentiva os membros a equipe a cultivarem seus próprios vinhedos. "É o mesmo trabalho", diz Rebelo. "No entanto, a propriedade transforma a maneira como as pessoas pensam. Param de se comportar como funcionários e começam a pensar como empreendedores".

António costuma descrever a vida no Douro como uma corrida de revezamento. "Você não escolhe o ponto de partida e nunca verá a linha de chegada". Você herda um vinhedo daqueles que vieram antes de você, aprimora-o com discernimento e esforço, e o passa adiante mais forte do que o encontrou.

“O mesmo se aplica às organizações”, diz Rebelo. “Liderança não tem a ver com propriedade. Tem a ver com gestão responsável, deixar pessoas, instituições e comunidades mais fortes para a próxima geração”.

Featured Faculty

MUFG Bank Distinguished Professor of International Finance; Professor of Finance; Faculty Director of the EMBA Program

About the Writer

Fred Schmalz is art and business editor of Kellogg Insight.

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